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A crise na confiabilidade e a pesquisa em saúde

A pesquisa médica é uma área fundamental da pesquisa científica. Voltada para aplicação, seja nos consultórios ou nas políticas públicas, é uma área de pesquisa que impacta diretamente a população. No consultório, os médicos usam os artigos científicos para selecionar o melhor tratamento para os seus pacientes. No âmbito governamental, administradores e agências oficiais de saúde também utilizam os artigos para guiar decisões estratégicas de prevenção e para indicar tratamentos.

Os detalhes do método científico e a confiabilidade dos resultados

Como qualquer relato científico, os relatos da pesquisa médica requerem dados confiáveis coletados a partir de estudos científicos. Nesse caso, é por meio desses relatos, artigos de pesquisa publicados em revistas científicas, que os achados são escrutinizados e disponibilizados para a prática clínica, além da comunidade científica. Para que essas conclusões possam ser aplicadas na prática médica, ou usadas para fundamentar políticas públicas, elas precisam não apenas de ser confiáveis, mas também é necessário que todo o estudo seja descrito em detalhes suficientes. Na realidade, essas duas características estão intrinsecamente relacionadas. Infelizmente, muitas vezes esse não é o caso.

Existe a necessidade de melhorar a redação de estudos da área da saúde, diante do acúmulo de evidências demonstrando diversos problemas nesses relatos, mesmo após passarem pelos mecanismos de controle que temos para a publicação científica hoje, principalmente o sistema de revisão por pares e a avaliação dos editores. Alguns exemplos desses problemas são omissão de informações importantes na descrição dos métodos ou das intervenções, relato seletivo de apenas parte dos resultados, apresentação de dados e gráficos de maneira confusa ou até enganosa, inconsistência na escolha da análise estatística, entre outros.

Obviamente a responsabilidade sobre o trabalho é dos autores, tanto na redação quanto nas etapas anteriores de planejamento e conduta. Mas os editores também devem tomar medidas razoáveis para garantir a qualidade daquilo que é publicado em suas revistas. Aí é que entram as diretrizes para comunicação da pesquisa em saúde, para ambas as partes. Essas diretrizes especificam um conjunto mínimo de itens que são necessários para o relato completo e claro de um estudo, tanto nos métodos como nos resultados subsequentes. Aderir a essas diretrizes é uma estratégia para melhorar a acurácia e a transparência das publicações.

Quais são essas diretrizes?

Nos últimos vinte e cinco anos, diversas diretrizes foram desenvolvidas com essa finalidade para diferentes tipos de estudo. As diretrizes que são reconhecidas internacionalmente refletem o consenso na opinião de especialistas em uma área específica, o que inclui autoridades em metodologia e editores das revistas, assim como evidências empíricas relevantes. Algumas revistas selecionam diretrizes específicas e requerem que os autores as sigam. Nesse contexto, a EQUATOR (Enhancing the QUAlity and Transparency Of health Research) é uma iniciativa do Reino Unido criada para promover a transparência e acurácia nos relatos científicos na área da saúde. A rede tem mais de 250 diretrizes registradas. São muitas! Mas as mais importantes e utilizadas serão discutidas resumidamente aqui: PRISMA, CONSORT, STROBE, MOOSE, STARD e SPIRIT.

  1. PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-analyses) foi desenvolvido, como o próprio nome diz, para revisões sistemáticas e meta-análises. Esta consiste em uma lista com 27 pontos divididos nas seguintes categorias: título, resumo, introdução, métodos, resultados, discussão e financiamento.
  2. CONSORT (Consolidated Standards of Reporting Trials) diz respeito a estudos clínicos randomizados controlados. Esses padrões vêm sendo revisados e atualizados com base em evidência empírica acumulada. A lista do CONSORT consiste de 25 itens divididos em: título e resumo, introdução, métodos, resultados, discussão e outras informações. Além disso, também há um fluxograma.
  3. STROBE (STrengthening the Reporting of OBservational studies in Epidemiology) é utilizado para estudos observacionais, especificamente estudos de coorte, caso-controle e transversais. O STROBE contém 22 itens divididos também em: título e resumo, introdução, métodos, resultados, discussão e outras informações. Dezoito desses itens são os mesmos para os três tipos de estudo, enquanto quatro são específicos.
  4. MOOSE (Meta-analysis Of Observational Studies in Epidemiology) é utilizado para meta-análises e estudos observacionais. Essa lista contém 35 itens nos seguintes tópicos: background, estratégia de busca, métodos, resultados, discussão e conclusão.
  5. STARD (STAndards for the Reporting of Diagnostic accuracy studies) foi criado inspirado no CONSORT, sendo direcionado a relatos de estudos de diagnósticos e acurácia de prognósticos. Sua lista contem 25 itens divididos em: título, resumo e palavras-chave; introdução; métodos; resultados e discussão. Nesse caso também há um fluxograma, que traz informações sobre o método utilizado para recrutar os pacientes e sobre a ordem em que os testes devem ser aplicados.
  6. SPIRIT (Standard Protocol Items: Recommendations for Interventional Trials) foi criado para o relato de protocolos de ensaios clínicos. Os requerimentos listados incluem 33 itens divididos nos seguintes tópicos: informação administrativa, introdução, métodos, ética e disseminação e apêndices. Além disso, é recomendado que o protocolo tenha um formato específico, que inclui índice, títulos de seções e uma lista de referências.

Afinal, vale a pena?

Apesar de evidências a favor da melhoria na qualidade dos relatos nos artigos, acredita-se que a introdução dessas diretrizes ainda não atingiu uma completa transparência e acurácia, principalmente porque elas não são seguidas tão rigorosamente. O que se observa é que nem os editores nem os revisores querem assumir total responsabilidade de verificar se aquele trabalho de fato aderiu às diretrizes. A alternativa seria que as revistas tivessem funcionários do ramo acadêmico para verificar a aderência dos manuscritos submetidos antes de eles serem encaminhados aos editores e revisores. Isso obviamente tem um custo, tanto financeiro quanto no atraso do tempo necessário para a revisão, mas é uma maneira de controlar o mérito do manuscrito. No final das contas, a responsabilidade real de aderir, ou não, recai apenas sobre os autores.

Além disso, há discussões sobre potenciais desvantagens da aplicação dessas diretrizes. Por exemplo, para conseguir se adequar, alguns autores podem se ver direcionados a fabricar informação. Outra implicação é que algumas pesquisas podem ser simplesmente perdidas. Se apenas artigos que aderem às diretrizes forem publicados, isso pode gerar um tendenciamento nas publicações. Isso na prática representaria uma barreira para alguns estudos serem publicados em revistas de alto fator de impacto. Publicar em revistas que não requerem obrigatoriamente essas diretrizes e com estratégia open access é uma maneira de atenuar esse tendenciamento introduzido pelo uso inapropriado ou ineficiente das tais diretrizes.

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