Periódicos acadêmicos se tornaram um negócio e o efeito disso para os pesquisadores

26 September 2014  |  Postado em Mundo Editorial Científico   |  Sem Comentário  |  Faça um Comentário

Money-UniversityO contexto internacional de publicação de artigos científicos é fortemente marcado pelo capital. Enquanto no Brasil periódicos acadêmicos em geral estão associados a instituições – em sua maioria públicas – de ensino superior e possuem equipes majoritariamente voluntárias (ou contratadas  com verba de editais públicos), no cenário internacional os principais periódicos pertencem a grandes instituições comerciais e possuem fins lucrativos, ou seja: são grandes negócios administrados por grandes empresas desde o processo de editoração até a distribuição.

Uma pesquisa realizada em 2011 pela empresa de consultoria Outsell in Burlingame (Califórnia) concluiu que os periódicos acadêmicos gastam, em média, até quatro mil dólares por artigo publicado e possuem uma margem de lucro que costuma variar de 20% a 30%. Em função disso, a publicação de artigos científicos pode chegar a 10 mil dólares por submissão em grandes periódicos. Além do alto valor das taxas de submissão, estes periódicos acadêmicos também cobram pelo acesso ao conteúdo. Logo, pesquisadores precisam pagar tanto para publicar quanto para ler artigos científicos, cujo principal objetivo deveria ser divulgar conhecimento indiscriminadamente.

Uma das grandes críticas a esse sistema é que uma parte fundamental do trabalho no processo editorial é feita voluntariamente por pesquisadores, uma vez que a revisão por pares é gratuita, em contrapartida, a administração deste processo é um dos pontos que mais encarece a publicação de artigos científicos, juntos com outros gastos, como publicidade. Mas embora sejam parte fundamental do processo e sem ganhar nada por isso financeiramente, os pesquisadores precisam pagar para submeter e ler artigos publicados. Isso não é um problema caso o pesquisador esteja vinculado a uma instituição de ensino ou pesquisa – responsáveis pela maior parte das assinaturas através de pacotes de acesso institucionais -, porém, se o pesquisador estiver momentaneamente desvinculado de instituições do gênero, deverá arcar com os custos da atividade que deseja realizar, seja a leitura ou a publicação de um artigo.

Outra crítica forte ao sistema editorial de periódicos acadêmicos no contexto internacional é em relação às consequências dessa monetarização no processo de publicação. Visto que um dos fatores fundamentais para que um periódico se torne renomado é o número de citações que recebe e seu prestígio dos periódicos renomados é uma boa justificativa para a prática de valores mais altos que a média dada a visibilidade que proporcionam aos artigos científicos neles publicados, muitos pesquisadores criticam práticas editoriais que parecem dar preferência a artigos que potencialmente podem render mais citações. Artigos com essas características seriam aqueles que suscitam questões polêmicas, discutem temas em voga ou apresentam crítica da literatura acadêmica. Acredita-se que, para conseguir mais citações, alguns periódicos dêem preferência a este tipo de publicação independente da qualidade do conteúdo apresentado, comprometendo a publicação de artigos que poderiam dar uma melhor contribuição à ciência.

Práticas mais graves que visam apenas a questão do capital no mundo das publicações acadêmicas seriam a citação por pressão e aceitação de artigos visando apenas a taxa de submissão. No primeiro caso, editores de periódicos pressionam pesquisadores em posição acadêmica mais fragilizada – ou seja, que precisam mais urgentemente publicar para se afirmar profissionalmente – a citarem artigos científicos no periódico no qual submeteram um artigo como condição à publicação. Já no segundo caso os periódicos acadêmicos podem comprometer a credibilidade de contribuições relevantes por burlarem critérios de avaliação da revisão por pares ao publicarem todo artigos que lhes sejam submetidos com a finalidade única de coletar a taxa de submissão. Em todos esses casos os pesquisadores são os maiores lesados, uma vez que a quantidade de publicações e o prestígio dos periódicos nos quais publicam são aspectos centrais para a ascensão profissional acadêmica e a monetarização das questões editoriais dos periódicos acadêmicos muitas vezes aumentam os empecilhos à divulgação do conhecimento científico de qualidade.

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