Por que universidades não têm retorno ao criarem suas publicações científicas?

28 August 2014  |  Postado em Mundo Editorial Científico, O Mundo Acadêmico   |  Sem Comentário  |  Faça um Comentário

publicações científicasComo se sabe, no Brasil os principais periódicos das diversas áreas de conhecimento são editados por instituições de ensino e pesquisa e não possuem fins lucrativos, apesar de também se valerem do método de avaliação da revisão por pares como ocorre nos principais periódicos internacionais. A principal consequência disso para os pesquisadores é a isenção de taxas de submissão e publicação, que no exterior são bastantes elevadas, embora geralmente cobertas pelas instituições às quais os pesquisadores são filiados. Porém, ainda que não arquem com os altos custos de publicação, muitos pesquisadores têm questionado o forte fator comercial dos sistemas de publicações científicas em âmbito internacional.

O fato de grandes empresas e conglomerados comerciais do ramo editorial serem responsáveis por alguns dos principais periódicos internacionais vem sendo questionado pelas possíveis distorções que isso gera ao meio acadêmico. Uma das distorções mais atacadas refere-se às práticas pouco éticas para alavancar o número de citações – principal critério de avaliação das publicações científicas em âmbito internacional -, que vão desde a opção por artigos que abordam temas mais em voga ou polêmicos (em detrimento da qualidade do conteúdo), a pressões sobre pesquisadores para que citem trabalhos do periódico ao qual pretendem submeter como condição para viabilizar a publicação. Outra crítica forte se refere ao fato de que periódicos de menos expressão publicados por editoras comerciais se utilizam das submissões para “fazer caixa”, não fazendo-se valer de critérios rigorosos no processo de avaliação e vindo a publicar quase todo trabalho que seja submetido. Em todos estes casos, o rigor da revisão por pares cai por terra, bem como sua credibilidade, ainda que esta etapa do processo seja listada como uma das mais custosas na receita dos periódicos.

Fortalecendo o coro das críticas, um estudo feito recentemente por uma equipe de pesquisadores norte-americanos da área de Economia, e cujos resultados foram publicados no The Guardian, revelou algo que depõem ainda mais contra o investimento em serviços de empresas comerciais no âmbito das publicações científicas. Além dos altos preços cobrados e de em alguns casos colocarem seus interesses comerciais acima de sua proposta editorial, estas empresas não estão dando às universidades o mesmo retorno que as editora sem fins lucrativos.

Segundo a pesquisa, mesmo com os descontos substanciais oferecidos às universidades no pacote de assinatura que adquirem, o retorno obtido não compensa, ao menos não como se espera. Por possuírem uma estrutura comercial de grande porte e maior competitividade no mercado, imagina-se que as editoras comerciais sejam capazes de oferecer maior visibilidade aos trabalhos nela publicados, mas o que a pesquisa revelou é que o “valor por citação” (relação entre o investimento feito e o número de citações obtidas) em publicações comerciais chegava a ser atés dez vezes maior numa grande editora comercial (entre as pesquisadas) que numa editora sem fins lucrativos. A pesquisa chama a atenção porque, ao colocar a medida de avaliação em “valor por citação”, toca naquele que é o índica mais valioso atualmente ao status de pesquisadores e dos sistemas de publicações científicas como um todo.

Mas afinal, por que as universidades não têm retorno ao investir em editoras comerciais de periódicos acadêmicos? Acredita-se que o principal problema seja uma prática de mercado imposta pelas editoras e que impede uma maior transparências nas negociações: a cláusula de confidencialidade. Ao impedir que as instituições torne público os detalhes das negociações, esta cláusula impede que os valores praticados circulem, logo, as universidades não sabem quanto é cobrado às demais instituições e nem sabem que é possível barganhar para reduzir custos. Acredita-se que diante de tais informações, muitas universidades poderão vir solicitar a revisão de seus contratos e certamente repensarão sua política em relação à exclusividade dada às editoras comerciais.

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