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Substituição em campo: sai o Material Suplementar, entra o repositório online

Em ciência, não existe nada mais excitante do que ler um artigo científico inovador bem escrito, conciso e com resultados bem apresentados. É extremamente prazeroso ler um texto com ideias claras e hipóteses bem suportadas por resultados elegantes. Até que invariavelmente você se depara no texto com uma referência às figuras suplementares… nesse momento, todo aquele prazer de ler um texto de maneira corrida e leve se torna em desapontamento e frustração.

As revistas científicas possuem limites de formatação que não permitem a exposição de todos os resultados de uma pesquisa em apenas um artigo. Em geral, revistas com revisão por pares aceitam um máximo de 9 figuras e tabelas ao longo do texto. Entretanto, com o contínuo avanço da ciência, mais e mais resultados são necessários para se comprovar uma hipótese e ter um artigo aceito. Na prática, isso reflete na introdução de ideias ao longo dos artigos sem as figuras que lhe dão suporte; essas figuras, ao invés de serem introduzidas no texto, agora passam a fazer parte de uma sessão chamada “materiais suplementares”.

Materiais suplementares: um mal necessário das revistas científicas

A importância dos chamados materiais suplementares tem sido crescente: nele são inseridas muitas informações necessárias para dar suporte às ideias do artigo excluídas do texto principal devido às restrições de formatação. Entretanto, geralmente é um anexo .pdf contendo figuras, tabelas e métodos experimentais sem estruturação nem revisão adequadas de formato. Artigos de grandes revistas cientificas (como Nature e Science) são curtos e sucintos, geralmente com menos de 6 páginas. Como efeito colateral, frequentemente, encontramos o material suplementar do mesmo artigo contendo dezenas de páginas. Assim, os materiais suplementares dessas revistas se tornam essenciais para o leitor entender em profundidade os resultados da pesquisa publicada.

Um dos grandes problemas dos materiais suplementares começa pelo seu formato: arquivos .pdf não são nada amigáveis para a extração de dados. Assim, qualquer outro grupo de pesquisa querendo reanalisar dados publicados terá que extraí-los de maneira manual ou utilizando softwares que muitas vezes cometem erros. Na atual era de “big data”, aonde a quantidade de informação cresce exponencialmente, extrair dados de arquivos .pdf pode ser virtualmente impossível. Assim, na década de 90 muitos repositórios online começaram a ganhar importância para compartilhar publicamente os dados.

Um segundo problema muito frequente é a ausência do material suplementar acompanhando o respectivo artigo. Isso mesmo! Muitas vezes as revistas disponibilizam o artigo principal, mas não os materiais suplementares. Em geral isso são erros genuínos das revistas, como links que não encaminham para os materiais suplementares. Ainda assim, consertar esses pequenos erros podem levar meses, significando que os leitores podem não ter acesso aos dados por muito tempo. Em tempos de pesquisa tão competitiva, não ter acesso a um método descrito nos materiais suplementares pode significar perder a vanguarda na área. Além disso, imagine um aluno no final de sua pós-graduação: o não acesso aos materiais suplementares por meses pode significar terminar os seus estudos sem ter tido acesso a informações essenciais para a sua dissertação/tese.

Repositórios online de dados ganham força na substituição dos materiais suplementares

Com a era genômica no final dos anos 90, o PubMed se tornou um dos mais importantes repositórios online para dados de sequência de DNA e proteínas. Nele, os pesquisadores depositam publicamente os dados obtidos, podendo ou não os associar a uma publicação. Este passo foi extremamente importante por dois principais motivos: 1) disponibilizar dados ao público de maneira quase instantânea e 2) permitir o desenvolvimento de ferramentas para a análise de grandes conjuntos de dados. A partir disso, novos campos do conhecimento foram criados, como por exemplo a bioinformática.

O exemplo acima citado não é um caso isolado, havendo atualmente repertórios digitais para todas as áreas do conhecimento. Existem muitos novos repositórios independentes, entretanto alguns são mais recomendados dentro da sua área. Assim, quando você estiver tendo dificuldades em encontrar algum dado publicado, procure inicialmente em algum dos repertórios online disponibilizados. Com vantagens claras em relação aos materiais suplementares, muitas editoras passaram a recomendar que os dados sejam compartilhados através de repositórios.

Vantagens de utilizar repositórios de publicações  

Uma nova tendência é o uso de repertórios para publicações. Diferente do processo de publicação de um artigo científico, esses repositórios aceitam artigos sem revisão por pares. Historicamente existe uma certa desconfiança sobre a utilização de repertórios online, pois existe a chance de haver a disponibilização de dados incorretos. Além disso, em linhas de pesquisa muito competitivas, sempre existe a desconfiança de que os seus resultados podem ajudar a competição.

Entretanto existem muitas vantagens em utilizar repositórios online de publicações. A primeira é a óbvia disponibilização de resultados e ideias sem o processo longo de revisão, portanto de maneira muito mais rápida. Assim, mesmo as publicações contendo dados incorretos são acessadas e escrutinizadas pelo público mais rapidamente. Na prática, os pesquisadores ganharam acesso a uma grande rede de críticos que podem efetivamente colaborar e sugerir melhorias em um artigo. Isso leva muitos artigos pre-prints a uma qualidade melhor e, em consequência, muitos repositórios têm presenciado um aumento de citações de seus artigos nos últimos anos. Como resultado, algumas editoras já têm aceitado a transferência direta de artigos de pre-prints para as suas revistas, uma vez que é possível ver a aceitação do artigo por parte de especialistas. O número de citações de um pre-print, pode ainda, certamente ajudar o seu artigo a ser aceito em revistas de maior impacto ou melhor reputação. Por último, algumas agências já tem aceitado publicações pre-print em pedidos de financiamento a pesquisa, aumentando ainda mais a visibilidade dos repertórios.

Portanto, no seu próximo manuscrito, considere publicar em um pre-print. Você pode ter uma melhor e mais rápida exposição de seu trabalho, visualizar a aceitação do público imediatamente e ter a chance de melhorar o seu trabalho com as sugestões, aumentando as chances do seu trabalho ser aceito em melhores revistas científicas.

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