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Entregue-se ao jornalismo científico e torne-se ou seja um eterno refém das Fake-News

Duas das profissões mais difíceis e bonitas são a de um cientista e a de um jornalista. Difícil pois ambas as carreiras são extremamente competitivas e sem grandes incentivos: do lado da ciência, existe um constante corte nos orçamentos de governos, da mesma maneira que o jornalismo tradicional vem sofrendo um colapso. Além disso, ambos são empregos com muita competição por novidades, mas muitas vezes com pouco suporte para conseguir apurar a veracidade de fatos e hipóteses. Entretanto, ambas carreiras são lindas pois têm como objetivo final a busca pela veracidade, seja dos fatos no jornalismo, seja das hipóteses na ciência.

Entretanto, com a tendência atual em se substituir o jornalismo tradicional pelas redes sociais em busca de notícias, os grandes veículos de comunicação vêm focando cada vez menos espaço da ciência nas suas colunas para favorecer notícias que ainda dão audiência, como política, economia ou fofocas sobre celebridades. Com isso, o crível jornalismo científico produzido por estes grandes veículos, acaba por ser colocado de lado  e a divulgação da ciência por perder muito espaço na sociedade atual.

Neste ano de 2020, com a atual crise do sistema de saúde, causado pela emergência do novo vírus SARS-CoV-2 (ou coronavírus, causador da síndrome respiratória aguda grave), fica cada vez mais claro como tanto a ciência quanto a divulgação para a sociedade dos fatos comprovados são essenciais nas economias modernas. Com informações científicas mais acessíveis e indícios divulgados mais rapidamente, poderia ter-se evitada uma pandemia de Covid-19 (doença causada pelo coronavírus): as sociedades colocariam pressão sobre as autoridades para a execução de um bloqueio maior e mais cedo. Tanto os países do bloco Europeu quanto os Estados Unidos poderiam ter evitado o espalhamento da doença controlando melhor a circulação de pessoas desde o início; as economias poderiam analisar diferentes métodos de diminuir a circulação de pessoas ao invés de serem paralisadas.

Um exemplo ocorreu no Reino Unido: apesar de dados de infecção pelo vírus e taxas de internações previamente divulgadas, o governo estava apostando na política de não bloquear a circulação de pessoas para ocorrer o fenômeno conhecido como Imunidade de Rebanho. Entretanto, um modelo de estudo criado pelo Imperial College London sugeriu que a ausência de bloqueio poderia levar o sistema de saúde público (o orgulho britânico) ao colapso em poucas semanas. O país acordou no dia seguinte bloqueado e, apesar do sistema de saúde público da Inglaterra chegar perto de sua capacidade algumas semanas depois do surto, em algumas regiões do Reino Unido (como a Escócia) o número de leitos desocupados ainda era confortável.

Assim, diante de tal dilema da diminuição de visibilidade da ciência por grandes veículos de comunicação em momentos tão delicados, cientistas poderiam tomar a frente desta batalha e liderar a divulgação do conhecimento a um público mais amplo. De fato, cientistas treinados para divulgar conteúdo científico parecem ser tão bons quanto ou até melhores que os jornalistas, indicando que o campo poderia ter mais cientistas sendo treinado como escritores.

Muitos cientistas pelo mundo, de fato, estão começando a ter os seus próprios canais de divulgação de conhecimentos científicos, ocupando este espaço não preenchido pelas grandes mídias. O melhor exemplo no Brasil disso aconteceu durante o surto do coronavírus, com a ascensão meteórica do biólogo e pesquisador Dr. Átila Iamarino e seu canal Nerdologia. Durante o surto do Covid-19, Átila (cuja especialidade é virologia) muito competentemente divulgou para a população brasileira dados relevantes sobre a doença, e graças a eles boa parte da sociedade teve consciência dos dados científicos publicados através da viralização (desculpe o trocadilho) de seus vídeos.

Tal fato mostra que o jornalismo tradicional mudou, e se colunas de ciência perderam espaço nas grandes mídias, novas maneiras de divulgar a ciência e protagonistas também têm surgido nessa nova realidade para preencher este espaço deixado para trás. Nesta nova realidade, jornalistas e cientistas tentam construir uma ponte acessível entre a linguagem técnica dos artigos científicos e a acessibilidade de leitores através de diferentes canais. Estes novos personagens, além de suprir os leitores com ciência através de uma linguagem fácil e rotineira, também ajudam os autores dos artigos a terem o devido reconhecimento de seu trabalho pela sociedade. Assim, esse novo jornalismo científico se torna um jogo com ganhadores em ambos os lados.

No atual cenário da ciência, divulgar o seu trabalho para o contribuinte e justificar o dinheiro gasto nele é tão importante quanto ter boas teorias e dados robustos, evidenciando a importância crescente de termos divulgação científica de qualidade. De fato, em muitos países os financiamentos de pesquisa vêm acompanhados de metas de divulgação científica do trabalho realizado. Assim sendo, os agentes financiadores de pesquisa assumem a sua responsabilidade como fiadores do dinheiro público e tentam devolver a sociedade um produto valioso (conhecimento). Nesse sentido, a divulgação científica se torna uma ferramenta que faz esta roda girar continuamente, com os conhecimentos gerados sendo entregues a sociedade e a sociedade continuar a financiar pesquisas.

Um outro ponto importante que também cabe ao jornalismo científico é a checagem da veracidade das informações e a sua correta divulgação. Na atual realidade, com notícias falsas (as chamadas fake-news) muitas vezes dominando os conteúdos circulados em mídias sociais, a creditação dos fatos é, por si só, uma maneira de fazer ciência. Levar conteúdo verificado e escrutinizado cria no longo prazo uma cultura na qual não se acredita em fatos sem referências, um dos pilares que sustenta a cultura científica. Ao fazer divulgação científica de qualidade, tiramos o leitor da situação de ser uma vítima de notícias falsas e o transformamos em um personagem capaz de entender melhor a realidade e saber como agir racionalmente em situações de stress. Além disso, damos mais força a ciência como um todo, pois entregamos o principal produto (construção do conhecimento) de volta a sociedade e justificamos os investimentos realizados.

Portanto, quando jornalistas e cientistas se engajam conjuntamente por um bem maior, como divulgação de ciência, este esforço acaba sendo recompensado na forma de reconhecimento social de ambas difíceis profissões e ainda criam benefícios maiores para a sociedade, como o enfrentamento de um inimigo comum (as notícias falsas) e da circulação de matérias infundadas pelas redes sociais. Que após todo este surto de Covid-19 a sociedade perceba o quão valioso é a divulgação do conhecimento e passe a dar mais valor a fatos científicos do que as notícias falsas.

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