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E essa quarentena que não acaba? Trabalho e saúde mental no mundo pandêmico.

Aqui estamos nós em uma quarentena eterna, enquanto muitas pessoas estão curtindo a praia e outras aglomerações com os amigos (espero que ao menos usem máscara). Muitos de nós pesquisadores, informados e preocupados com os efeitos da pandemia, continuamos em casa. Obviamente, não sem custo à nossa saúde mental.

A bolha da ansiedade está crescendo

A relação de problemas de saúde mental com a pós-graduação não é nenhuma novidade. Pesquisas indicam que pós-graduandos têm seis vezes mais chances de desenvolver transtornos de depressão e ansiedade em comparação com a população em geral. Estes números, entretanto, retratam condições “normais”, de um mundo não-pandêmico.

Desde março o coronavírus tem afetado nossas relações sociais e nosso trabalho de diversas maneiras. Experimentos foram interrompidos, planos foram cancelados e metas foram adaptadas. Dependendo da etapa em que estava a sua pesquisa, ela pode ter sido mais ou menos afetada pela quarentena. Mas, independente disso, a rotina de trabalho de todos foi diretamente afetada. Reuniões, seminários, disciplinas e cursos passaram a ser todos online. Vocês não acham que as reuniões online são mais maçantes do que as presenciais? As reuniões pré-pandemia agora parecem tão objetivas… Sem contar a própria restrição de contato social (saudades das conversas na hora do almoço e na sala do café) e a sensação de incerteza generalizada. Fato é que tudo isso traz novos desafios à nossa saúde mental (leia aqui a discussão de um estudo sobre a ansiedade na quarentena).

Os principais desafios

Muitos cientistas em formação têm dificuldades em impor limites ao trabalho. Além deste fator, há também uma cultura que valoriza o trabalho em excesso. Em tempos de pandemia e com o trabalho sendo executado remotamente, fica ainda mais difícil impor esses limites. É fácil simplesmente continuar ali sentado no computador trabalhando, principalmente se não podemos sair e socializar. Além disso, sabemos que é bem comum ter aquela sensação de dívida, não importa o quanto e quão focado você tenha trabalhado. Então cuidado para não cair nesse buraco, porque o trabalho remoto em tempos de pandemia favorece ainda mais tudo isso.

Vamos tentar abstrair essa cultura de trabalhar em excesso e olhar por outro ângulo. O excesso de horas trabalhadas também pode ser ruim. Inclusive há um distúrbio com sintomas de estresse, exaustão, esgotamento físico e insônia (entre outros) decorrente de situações de trabalho muito desgastantes, a chamada Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional. Jornadas de trabalho muito extensas estão claramente relacionadas com a ocorrência desse problema. Extender as horas de trabalho pode parece eficiente a curto prazo. Mas, a médio e longo prazo, essa rotina claramente tende a diminuir a produtividade e prejudicar a sua saúde mental. Então vamos focar na nossa saúde e tentar manter o trabalho interessante e produtivo, mas não desgastante.

Algumas dicas

Algumas dicas podem ser fáceis de implementar para evitar que você caia nessa armadilha do workaholic quarentenado. Primeiro, é muito importante ter uma área específica dedicada ao trabalho e separada do lazer. Se você pode ter um escritório, é excelente, então não leve atividades de lazer para a mesa do escritório. Se você divide apartamento, talvez seja possível combinar com seus colegas e separar uma parte da sala para transformar em escritório. Se você mora em um estúdio e não pode ter um ambiente fisicamente reservado, decida qual será a área restrita do trabalho. Não importa se não é um quarto separado, mas é fundamental ter essa separação na sua mente.

Outra dica interessante é se vestir para trabalhar. É fácil passar o dia todo trabalhando de pijama. Afinal, é bem confortável mesmo. Mas trocar de roupa ajuda a ativar na sua mente o modo de trabalho. Não precisa se arrumar tanto, pode escolher uma roupa confortável mesmo, mas troque o pijama.

Estabeleça o seu horário de trabalho e tente seguir essa rotina. Assim você pode desligar no fim do expediente. Agora você precisa de estratégias para desligar. Se você tem uma gaveta, guarde seu material de trabalho ali (por exemplo o seu caderno de laboratório). Quem sabe desligar as notificações de e-mail do celular pode fazer uma grande diferença? Outra idéia é planejar uma atividade para depois do expediente e utilizar isso como uma tática para delimitar o fim do dia de trabalho. Por exemplo, você pode marcar uma conversa com um amigo, com os seus pais, ou determinar a hora de começar a preparar o jantar.

Hábitos saudáveis

Além disso, podemos tentar implementar e manter diversos hábitos para tornar a rotina mais leve e ajudar nossa mente nesse momento com mais tendências a ansiedade e depressão. Exercite a sua flexibilidade, essa é uma grande vantagem do trabalho em casa. Claro que é importante manter a rotina, mas você pode aprender a ter uma certa flexibilidade quando precisar. Pode fazer uma pausa, tomar um chá ou um café. Até tomar um banho ou tirar um cochilo em um horário aleatório pode ajudar. Aproveite, porque não poderemos fazer isso quando a rotina do laboratório voltar. Também não precisa se preocupar com as interrupções que acontecem nas reuniões profissionais online. Às vezes um cachorro ou gato aparecendo repentinamente na tela até ajuda a quebrar a monotonia.

Um hábito essencial e inquestionável é o da atividade física. A prática de exercícios está relacionada não apenas à saúde do corpo, mas também à saúde da mente. Que tal trocar uma hora de Instagram por uma boa hora de exercícios e alongamento? Diminuir o tempo de tela e redes sociais faz um bem que você não imagina!

Podemos tentar manter um pouco de contato social com os colegas. Não vamos nos encontrar fisicamente na salinha do café, mas podemos combinar um horário para tomar um café ou marcar um almoço coletivo online. Ou um happy-hour, cada um com sua cerveja, vinho ou drink sem álcool. Aliás, ótima estratégia para delimitar o fim do expediente, pelo menos na sexta-feira.

Enfim, mais cedo ou mais tarde vamos retornar a uma rotina mais próxima do mundo pré-pandemia. Mas muitas dessas dicas e hábitos saudáveis podem ser incorporados na nossa vida para sempre. Quem sabe agora estamos mais alertas sobre a importância de cuidar da saúde mental.

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