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Velhos hábitos são difíceis de mudar: como a pandemia mudou os nossos hábitos de leitura científica

O termo que define 2020 é mudança forçada. Em apenas alguns meses, o que antes era impensável aconteceu: economias fecharam, pessoas pararam de ir ao trabalho e todas as interações sociais passaram a ser evitadas. A pandemia de Covid-19 forçou todas as sociedades a se readaptarem e mudarem a maneira como funcionam. Com a exceção de poucas profissões essenciais para manter o básico em uma sociedade, tudo foi fechado ao redor do globo por meses a espera de respostas e orientações vindo da ciência.

Assim, parte da comunidade científica envolvida em linhas de pesquisas sobre Covid-19 foi considerada profissão essencial durante a epidemia e continuou normalmente. Mais do que isso, uma imensa quantidade de novos financiamentos e grupos passaram a se dedicar mais a pesquisas relacionadas a Covid-19.

Na prática, o que se viu foi uma explosão de dados produzidos e publicações na área a uma velocidade nunca vista antes. Diante de um ambiente extremamente competitivo e dinâmico, aumentou exponencialmente o número de preprints envolvendo Covid-19: até o começo de julho, com mais de 6 mil artigos publicados desde o começo da pandemia.

Os preprints apresentam algumas vantagens em relação a publicação de artigos revisados pelos pares

Preprints são uma maneira interessante de rapidamente expor os seus dados a comunidade científica e receber feedbacks; eles permitem montar novos experimentos para acompanhar sugestões, adequar o texto e alterar erros conceituais através da crítica da comunidade, sendo uma ferramenta extremamente valiosa em ciência. Como exemplo, alguns dos trabalhos mais importantes sobre Covid-19 foram inicialmente publicados por chineses em preprints sobre o novo vírus e descrevendo a patogênese por ele causada. Ainda, por serem de livre acesso, a sua circulação é rápida em mídias sociais e permite atingir um público muito maior do que as publicações tradicionais.

Assim, a utilização de preprints tem sido cada vez mais sugerida entre acadêmicos, pois estimula a discussão e a troca de ideias e informações entre diversos membros de uma mesma comunidade cientifica, ajudando em seu avanço.

Preprints não passam por revisão por pares

Se por um lado os preprints apresentam diversas vantagens sobre os artigos convencionais, por outro lado existe um viés negativo: a falta de revisão por pares antes de sua publicação. Assim, por evitarem o longo processo desde a revisão pelos pares até a sua publicação, preprints podem apresentar ideias inconsistentes ou erros metodológicos. Este viés negativo mudou a maneira como pesquisadores lêem artigos científicos. Se por um lado os preprints podem trazer muita informação importante rapidamente (antes de ser aceito para publicação em uma revista com revisão por pares), por outro eles podem conter informações imprecisas ou errôneas. Também permitem tirar conclusões não suportadas pelos resultados apresentados.

Assim sendo, pesquisadores passaram a ter acesso a mais preprints após a pandemia, com circulação rápida de resultados e idéias que certamente ajudaram a conduzir suas pesquisas de maneira mais dinâmica. Entretanto, os mesmos pesquisadores também devem ter passado a ler artigos com mais criticismo para não basear futuras pesquisas em dados não consistentes ou hipóteses infundadas.

Como os pesquisadores mudaram o jeito de ler dados científicos

Fundamentalmente, cientistas deveriam ler artigos científicos de maneira imparcial, analisando resultados e conclusões baseadas nos resultados de maneira fria e objetiva. Por outro lado, tal enxurrada de artigos científicos chovendo na comunidade científica a uma velocidade nunca antes observada certamente forçou cientistas a filtrarem suas buscas por artigos. Inevitavelmente, com o aumento do volume de resultados disponíveis nas redes, dados não consistentes sobre Covid-19 foram apresentados ao público, muitos prezando pela velocidade de divulgação de seus resultados em detrimento da qualidade do trabalho.

Com isso, a comunidade científica se viu cercada de trabalhos sem revisão por pares e contendo resultados que se contradizem. Isto levou, tanto pesquisadores quanto a sociedade, a uma desinformação generalizada sobre muitos fatos científicos nesta pandemia. Com o objetivo de filtrar melhor a veracidade de fatos publicados, uma iniciativa para lutar contra a desinformação foi montada por pesquisadores da Universidade de Washington. Nesta iniciativa, dados de redes sociais e publicados em veículos de mídia são coletados e comparados para tentar combater a propagação de informações errôneas, que podem comprometer a orientação de políticas públicas baseadas em evidências.

Diante de tal crise de credibilidade, inevitavelmente resultados e ideias de autores e grupos com maior prestígio dentro da comunidade científica se tornam mais buscados por terem uma maior credibilidade prévia. Pesquisadores buscando dados com credibilidade para suportar as suas pesquisas deixaram a imparcialidade de lado e passaram a confiar mais em artigos contendo autores de grande peso em pesquisa ou em revistas de grande fator de impacto, como relata a editora científica do BMJ. Assim, pesquisas feitas em grupos novos ou menores, por mais que apresentem dados consistentes e hipóteses bem fundamentadas, correm o risco de terem menos visibilidade que aqueles apresentados por prêmios nóbeis ou pesquisadores de grandes centros.

Dados errôneos também são publicados em revistas com revisão por pares

Apesar de preptints carregarem o estigma de divulgar informações errôneas mais frequentemente, durante a pandemia a confusão científica foi mais generalizada do que esperada, com desinformação provinda até mesmo de revistas renomadas. O mais conhecido até hoje gira ao redor do uso da hidroxicloroquina como potencial tratamento do Covid-19. Testes iniciais in vitro demonstraram a sua eficácia em laboratório. Baseado nisso, testes clínicos começaram a ser realizados para combater Covid-19, mostrando a sua ineficácia em diversas fases da doença. Entretanto, a retratação de 2 artigos publicados nas maiores revistas medicas que refutavam o uso da hidroxicloroquina como tratamento parece ter aberto espaço novamente para discussões sobre o seu uso terapêutico em casos iniciais da doença. Como consequência de tanta informação desencontrada, pesquisadores de universidades importantes têm constantemente discutido sobre a eficácia de tal tratamento em diferentes estágios da doença e se estudos clínicos deveria continuar prosseguindo.

Leia artigos de maneira imparcial e crítica

Em suma, a pandemia certamente mudou o jeito como pesquisadores estão lendo artigos científicos. Com a ajuda de preprints, um grande volume de dados e idéias são publicados diariamente, sendo impossível de acompanhar toda a literatura nova da área. Para filtrar tamanho volume de dados, pesquisadores têm se utilizado de filtros parciais, como autoria ou local de publicação dos dados. Entretanto, muitos dados confiáveis e boas ideias podem estar contidos em preprints e não podem ser desperdiçados. O contrário também se provou verdadeiro mesmo em revistas de alto impacto com revisão pelos pares. Assim, a única atitude que nos resta é continuar lendo artigos científicos com olhos críticos, independente do tipo de publicação ou sua origem.

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