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Grosserias em inglês: quando o seu manuscrito é tratado com rispidez pelos seus revisores

“O manuscrito aqui apresentado não é completamente claro e necessita de uma revisão por algum colaborador fluente em inglês ou serviço de revisão pago da escrita e linguagem”

“A escrita do trabalho apresenta diversos erros gramaticais e de concordância ao longo do texto apresentado”

Os comentários acima são exemplos genéricos de respostas que todo pesquisador não nativo em inglês, incluindo eu, já recebeu sobre o seu manuscrito dos revisores de revistas.

Para todos aqueles que, como eu, não tiveram o privilégio de ter nascido em um país cuja língua nativa é o inglês, o processo científico tem um degrau a mais. Para mim e para muitos outros pesquisadores nativos em português, o processo de aprendizado da escrita científica vem acompanhado pelo aprendizado da escrita em inglês formal.

Na prática, ser um pesquisador nascido em um país de língua inglesa representa uma vantagem sobre todos os outros pesquisadores. Escrever na própria língua nativa é mais fácil, natural e objetivo, levando a uma maior clareza do manuscrito resultando em um maior apelo ao público alvo das revistas. Como consequência, os pesquisadores não nativos em inglês apresentam uma desvantagem, pois acabam gastando mais recursos (tempo e dinheiro) para escrever e revisar os seus manuscritos. Conforme a prática, fui melhorando a minha escrita científica em inglês e, consequentemente, o tempo para escrever ou corrigir um manuscrito caiu gradualmente. Entretanto, a minha escrita e fluência dificilmente serão competitivas frente aos meus pares de internacionais da língua inglesa.

Em um momento acadêmico de acirrada competição por publicações de qualidade em revistas de alto fator de impacto, ter um texto bem escrito em inglês pode diferenciar entre ter um manuscrito aceito em uma revista de alto fator de impacto ou ser rejeitado. No início da minha carreira tive incontáveis dias extras de trabalho (aos finais de semana e feriados) corrigindo um manuscrito ou tentando escrevê-lo com a ajuda de tradutores online, tempo que seria melhor aproveitado trabalhando no projeto e explorando as perguntas ainda abertas.

O papel fundamental de uma revisão pelos pares é avaliar o trabalho apresentado nos manuscritos, sugerir modificações que melhorem o trabalho e assegurar que as revistas publiquem ciência de alta qualidade. Receber criticismos nem sempre é prazeroso, no entanto quando críticas elevam a qualidade do seu manuscrito pela revisão e reconsideração da ciência por trás do trabalho, então certamente a revisão por pares cumpriu o seu devido papel.

Entretanto uma pesquisa publicada na revista PeerJ entre mais de mil primeiro autores de manuscritos espalhados por 46 países mostra que mais da metade destes já receberam em algum momento de suas carreias uma revisão não profissional, atacando pessoalmente o cientista de maneira cruel e desnecessária.

Como exemplo de alguns desses comentários cruéis, temos (em tradução livre): “O que o autor fez é um insulto a ciência”; “Ester manuscrito foi claramente escrito por um grupo de uma instituição de baixos padrões, baseado na qualidade do trabalho” e as frases que eu tenho evitado usar até agora para descrever esta revisão são: “um porco maquiado de batom” e “um monte de esterco querendo confundir o meu cérebro”. Além desses comentários grosseiros, existem alguns outros exemplos xenofóbicos, como por exemplo “O sobrenome do autor soa espanhol. Eu não li o manuscrito porque tenho a certeza de que ele está cheio de inglês mal escrito”, ou ainda sexista, como “Apesar de ser uma mulher, a investigadora principal foi treinada por vários homens a frente de seus campos de pesquisa e, portanto, foi provavelmente preparada de maneira adequada para liderar a pesquisa proposta”.

A pesquisa publicada no PeerJ também sugere que pesquisadores não nativos em inglês ou de cor parecem ser vítimas mais frequentes de ataques de revisões não profissionais do que pesquisadores baseados nos Estados Unidos ou no Reino Unido. Adriana Romero-Olivares, uma pós-doutoranda em ecologista oriunda do México e atualmente baseada na Universidade de New Hampshire, publicou um relato pessoal na revista Science sobre o ataque de revisores recebido por seu primeiro manuscrito submetido (quando ainda estava no México). Seu relato pessoal começa descrevendo alguns desses ataques: “Este manuscrito necessita uma edição significante, pois não está escrito em inglês claro e não pode ser aceito na sua forma atual”; “Esta sentença não faz sentido”; “Os autores precisam de um colaborador nativo em inglês para detalhadamente revisar a gramática deste manuscrito”.

Comentários cruéis certamente são frustrantes a qualquer cientista, independentemente de seu nível ou posição, e podem danificar a ciência e tecnologia como um todo por desestimular pesquisadores a continuar na carreira científica. No entanto a pesquisa aponta que mulheres de cor e pessoas não binárias (aquelas que não se identificam com nenhum dos sexos) que sofreram ataques de revisões não profissionais apresentam maiores impactos negativos, com maiores chances de ter a carreira atrasada. Por outro lado, homens brancos são mais propensos a não reportar impacto algum em suas carreiras após receber uma revisão não profissional.

Utopicamente, uma maneira de equalizar o jogo científico entre todos os pesquisadores do mundo seria normalizar as publicações em uma língua morta, como por exemplo o latim. Dessa maneira, todos os pesquisadores partiriam do mesmo princípio de que ninguém é nativo, portanto, todos deveriam aprender uma língua diferente da sua para publicar.

Entretanto, mesmo usando esta equalização não impediria revisores de continuar escrevendo revisões não profissionais aos autores dos manuscritos. Uma segunda maneira de inibir ataque de revisores a autores seria a implementação generalizada de revisão por pares duplamente cega. Nela, além dos autores do manuscrito não terem acesso aos revisores, o contrário também é verdadeiro (revisores não podem saber quem são os autores do manuscrito). Como em geral os campos científicos não são amplos, os revisores deveriam evitar comentários grosseiros a fim de evitar conflitos ao deferir um comentário grosseiro aos seus superiores ou a algum colega de trabalho.

No entanto, mais importante do que isso, a ciência deveria ser um processo colaborativo da construção do conhecimento e da busca pela verdade. O criticismo de maneira grosseira deveria ser uma prática banida para revisores. Obviamente criticismos para melhorar a linguagem de um artigo, tornando-o claro e objetivo, são bem-vindos pois facilita a interpretação e divulgação do artigo; contudo não cabe aos revisores criticar a linguagem, mas sim o trabalho científico, como a relevância das perguntas levantadas no projeto e as ferramentas utilizadas para responder a tais perguntas.

Portanto, revisores, o vosso trabalho é muito importante para o desenvolvimento da ciência, cujo avanço tende a beneficiar a todos. Parem de atacar de maneira não profissional os autores e, desse modo, desestimulá-los a continuar na carreira científica. Fazer ciência por si só já é difícil o suficiente; por favor não criem mais empecilhos para evitar o seu avanço.

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