Soluções para diminuir o número de pesquisas desonestas

desonestidade_enagoEmbora conhecido como o mundo da busca por verdades ou interpretações objetivas sobre as coisas, o universo da pesquisa acadêmica não está imune a problemas de desonestidade. Ainda que o objetivo maior da Ciência seja produzir e disseminar conhecimento, na prática pesquisadores precisam se sustentar através de seu trabalho no mundo da pesquisa, e as imposições atuais para a sobrevivência no meio acadêmica têm gerado uma série de distorções, estando a maioria delas ligadas ao âmbito da publicação acadêmica.

No contexto atual, pesquisadores precisam publicar trabalhos em periódicos acadêmicos com certa frequência, independente de terem ou não alcançado resultados de pesquisas minimanete conclusivos ou totalmente confiáveis segundo os critérios do rigor científico. Do volume de publicações dependem as chances dos pesquisadores de conseguirem fundos de pesquisa, serem promovidos e até mesmo de manterem seus cargos nas instituições onde atuam. Por isso mesmo tal cultura de publicação tem sido denominada de “publicar ou perecer” internacionalmente e no Brasil também é conhecida como cultura do “produtivismo acadêmico”, uma alusão à lógica de produção mercadológica ao âmbito da pesquisa científica.

Obviamente, esse contexto não justifica práticas desonestas, mas ajuda a entender porque elas parecem ser mais recorrentes no âmbito acadêmico nos últimos tempos. Algumas práticas, como o salami slicing,o autoplágio e a autoria honorária são mais brandas e recorrentes que a produção ou manipulação de resultados de pesquisa, mas ainda assim incorrem em práticas antiéticas. O salami slicing consiste em “fatiar” a publicação dos resultados de uma mesma pesquisa em vários artigos para “fazer volume”, por assim dizer. Já o autoplágio, também visando aumentar o volume de publicação, consiste em publicar uma mesma pesquisa em periódicos acadêmicos diferentes promovendo apenas pequenas alterações. Em comparação ao salami slicing e ao autoplágio, a autoria honorária pode ser considerada mais grave porque envolve a atribuição de autoria a um pesquisador que não participou da pesquisa. Geralmente essa prática funciona num sistema de “troca de favores”, em que um pesquisador atribui autoria a um colega num artigo e o mesmo retribui a ação em outra oportunidade, fazendo com que ambos multipliquem o montante de publicações.

As principais consequências negativas produzidas por esta lógica produtivista são um número excessivo de publicações que pouco ou nada apresentam de inovação e a realização de experimentos que não podem ser reproduzidos, visto que a pressa na apresentação de resultados resulta em negligência na condução dos mesmos. Estas pesquisas “problemáticas” ainda assim são publicadas graças ao grande número atual de periódicos acadêmicos existentes, sendo alguns de qualidade bastante duvidosa e que publicam, como se diz no jargão, “qualquer coisa”.

Mas será que existe uma solução para deter as pesquisas desonestas ou negligentes? Uma vez que a cultura do “publicar ou perecer” ainda não parece próxima de seu fim, as soluções acabam passando mais pela conscientização dos pesquisadores sobre a necessidade de melhorar a própria prática que por medidas sistêmicas de controle de qualidade. Neste sentido, o rigor na condução dos próprios experimentos, a opção de publicar menos (ainda que cumprindo o número mínimo de publicações exigidas) para divulgar apenas resultados de pesquisa completos e relevantes, e, por conseguinte, buscar sempre periódicos acadêmicos de renome para dar credibilidade ao trabalho, são medidas individuais que os pesquisadores podem colocar em prática visando a melhoria da qualidade do próprio fazer científico. No mais, a maior transparência sobre os dados de experimentos – disponibilizados em bancos de dados de acesso livre – e um maior rigor no controle de qualidade de periódicos acadêmicos (para evitar a proliferação dos chamados periódicos predatórios, que publicam todo artigo submetido mediante taxa de submissão), são medidas que podem atenuar de modo coletivo a incidência de práticas desonestas na academia.

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