Por que cientistas deveriam parar de publicar

30 June 2014  |  Postado em Fator de Impacto, Produção Científica Mundial, Submissão de Artigos aos Periódicos   |  Sem Comentário  |  Faça um Comentário

Parar de PublicarA “provocação” proposta pelo título foi feita numa publicação do University World News e tem como ponto de partida de sua reflexão o escândalo da pesquisadora japonesa Haruko Obokata acusada em abril de produzir resultados de pesquisa fraudulentos pelo maior instituto de pesquisa do Japão – o RIKEN – e que é também seu empregador. Segundo a autora do artigo, Brianne Kent, pesquisadora e doutoranda em Psicologia na Universidade de Cambridge, o caso de Haruko Obokata “é sintoma de um sistema quebrado” no qual a pressão para publicar estaria prejudicando a qualidade das publicações.

Ao contrário do que poderia se imaginar, a crítica de Brianne não se volta a pesquisadores burlam os critérios de credibilidade do meio acadêmico, mas sim as deformações do contexto atual que levam a esse tipo de comportamento distorcido. Para isso, ela “ataca” duas fontes do problema: a revisão por pares e o fator de impacto. A solução para acabar com estas distorções, segundo Brianne, é a criação de um sistema de arquivamento online de acesso livre.

Para entender os dois “vilões” à cultura acadêmica atual citados pela autora é necessário contextualizar seu lugar de fala, diferente do cenário acadêmico brasileiro. Quando Brianne critica o sistema de revisão por pares em periódicos acadêmicos como forma de avaliar artigos, ela está se referindo ao modo como isso é feito nos Estados Unidos e em muitos países europeus, onde é necessário pagar para publicar em periódicos de grande impacto. Logo, a crítica da autora não é em relação à revisão por pares, mas à monetarização do processo de publicação, que inclui também este tipo de revisão, algo que não acontece no Brasil. Inclusive, o sistema de arquivamento online de acesso livre proposto por ela também funciona através de revisão por pares, só que prevê uma lógica não capitalizada. No banco de acesso livre autores submeteriam seus trabalhos (sem taxas), que seriam organizados por moderadores em categorias e depois avaliados por pesquisadores da área, ou seja: revisto por pares.

Já o outro “vilão” apontado por Brianne tem sido mais amplamente criticado. O controverso fator de impacto que qualifica periódicos acadêmicos vem sendo questionado por muitos cientistas e órgãos acadêmicos, como a European Association of Science Editors. No Brasil, cabe à CAPES, através do WebQualis, qualificar os periódicos; já nos Estados Unidos e países europeus esta qualificação é feita através do fator impacto, índice de mensuração que se baseia na quantidade total de citações recebidas por um periódico ao longo de certo período e determina quais os periódicos de grande impacto: quanto maior o número de citações, mais alta a qualificação e mais prestigiado a periódico.

Sendo um índice generalista e quantitativo, o fator de impacto gera várias distorções, que vão desde a possibilidade de artigos medianos se beneficiarem do alto fator de impacto de uma publicação até a adoção de critérios editoriais duvidosos para aumentar o fator de impacto, como dar preferência a trabalhos polêmicos ou de temas que estejam em voga em detrimento daqueles de maior contribuição acadêmica – além de casos como o de Haruko Obokata, no qual a pressa para obter resultados de destaque e continuar enquadrada no hall de pesquisadores de sucesso criou o referido escândalo. Para Brianne, a solução para acabar com as deformações causadas pelo fator de impacto também seriam as publicações de livre acesso.

Embora haja uma crítica forte sobre a monetarização dos periódicos e o fator de impacto, sistemas de publicação de acesso livre não são uma unanimidade. O professor doutor Steve Caplan, pesquisador da área de bioquímica e biologia molecular no Centro Médico da Universidade de Nebraska, apresentou sua preocupação num artigo escrito para o The Guardian sobre os métodos de controle de qualidade em publicações de livre acesso. Caplan defende que o atual sistema seja revisto, porém não completamente abolido. Mas mesmo num contexto de múltiplas opiniões, uma coisa é consenso: é necessário rever os métodos de qualificação de periódicos e valoração das pesquisas, buscando meios de superar índices quantitativos em defesa da qualidade.

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