Publicação de qualidade não inundando o seu campo com resultados menores

21 November 2014  |  Postado em Mundo Editorial Científico   |  Sem Comentário  |  Faça um Comentário

istock_000017819269xsmallÉ inegável que com o avanço da tecnologia o volume de pesquisa científica realizada e em circulação nas mais diversas áreas de conhecimento aumentou significativamente nas últimas décadas, e há inclusive pesquisas que comprovam isso. Porém, será que todo trabalho de pesquisa que se transforma em publicação é de fato relevante? Certamente não, e a razão para isso são muitas.
Para começar, atualmente são muitos os periódicos disponíveis para que o pesquisador publique sua pesquisa científica, o que é positivo por um lado e negativo por outro. Pelo lado positivo, o grande número de periódicos disponíveis para publicação, de vários tipos (sendo a polarização mais comum entre os de livre acesso e os de acesso restrito) e níveis distintos (como no Brasil, onde os periódicos são classificados por critérios estabelecidos pela CAPES), contribui para uma maior democratização dos acessos: é possível publicar pesquisas sobre temas menos centrais, experimentos mal sucedidos e outros tópicos poucos contemplados pelos grandes periódicos. Porém, pelo lado negativo entende-se que o grande número de meios de publicação se presta indiretamente para alimentar o chamado produtivismo acadêmico.

As distorções causadas pelo produtivismo na pesquisa científica

Em muitos países um dos maiores problemas que assolam o meio acadêmico atualmente é pressão para que pesquisadores transformem o trabalho de pesquisa que realizam em publicação, pressão esta exercida por metas de publicações anuais ou pela lógica do “quanto mais, melhor”. Isso gera distorções na circulação da pesquisa científica, como o salami slicing, o autoplágio e a citação honorária. O salami slicing, em linhas gerais, é o “fatiamento” de um mesmo trabalho de pesquisa em várias publicações, diminuindo o impacto geral dos resultados do trabalho, uma vez que sua fragmentação impede a análise do contexto geral da pesquisa.

No caso do autoplágio, o pesquisador duplica sua pesquisa científica (ou partes relevantes desta) em mais de uma publicação para aumentar o volume de sua produção. Já na citação honorária um pesquisador inclui outro como coautor numa publicação, ainda que este não tenha contribuído para o trabalho de pesquisa. Este sistema muitas vezes funciona num mecanismo de troca de favores entre pesquisadores, no qual um inclui o outro como coautor em seus trabalhos e ambos aumentam seu volume de publicação. Em todas essas práticas o objetivo é o mesmo: aumentar a produção científica para “engrossar” o currículo.

O “problema” da qualidade da produção

Quando a pesquisa científica passa a ser classificada a partir do volume de publicação, a primeira questão que se coloca é: mas onde fica a qualidade neste processo? Na atualidade, na batalha entre quantidade versus qualidade da produção, os índices quantitativos ainda dominam as formas de avaliação e até que este cenário mude, cabe aos pesquisadores individualmente pensar formas de atender às demandas de volume de publicação agregando-a ao compromisso profissional da produção de pesquisa científica de qualidade.
Uma boa saída para driblar o produtivismo é publicar o número mínimo aceitável, esperando que resultados de pesquisa relevantes sejam alcançados para que possam atrair o interesse de periódicos bem conceituados. Obviamente que este é um desafio difícil, mas ele evita as tentações de incorrer nas deformações do produtivismo citadas e dá maior visibilidade à produção do pesquisador, além de agregar-lhe maior valor. Neste sentido, trabalhos em coautoria (reais, e não de caráter “honorário”) com pesquisadores seniores também ajudam a dar mais visibilidade ao trabalho e a publicar em periódicos melhor qualificados.
Mas quando for necessário “publicar para fazer volume”, é fundamental distribuir bem as publicações entre periódicos distintos a partir da qualidade do material do trabalho de pesquisa. Considerando-se que trabalhos relevantes merecem maior visibilidade – para o bem da carreira do pesquisador e do seu campo de conhecimento – deve-se sempre nestes casos tentar a publicação em periódicos renomados, deixando os trabalhos de qualidade mediana para periódicos de qualidade equivalente.

Anterior
Pesquisa científica acessível além da academia
Próximo
Oportunidade ou golpe? Editoras que oferecem publicação gratuita

Escreva seu comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *