Advocacy research: O perigo da pesquisa por uma causa

mao-no-coracaoA advocacy research é um tipo de pesquisa engajada numa determinada causa e que por isso tem o claro objetivo de fornecer evidências para sustentar uma determinada posição, princípio ou interesse. Este tipo de pesquisa costuma ser conduzida, ou ao menos financiada, por grupos que defendem a causa ou projeto a ser evidenciado pelos resultados da advocacy research, e tais resultados são utilizados para sustentar seus argumentos e propostas estratégicas.

Onde está o problema?

O problema da advocacy research está em sua premissa: por ter como fim a defesa de uma causa ou proposta, ou seja, por ser um tipo de pesquisa engajada em sua essência, ela naturalmente inspira desconfiança quanto à neutralidade de seus métodos. Ainda que a realização de uma pesquisa engajada não necessariamente implique no uso de métodos de pesquisa considerados parciais, a dúvida é naturalmente levantada, uma vez que a noção de pesquisa engajada, por si só, parece ferir os protocolos do método científico. Pode-se dizer que a noção de pureza dos métodos de pesquisa acadêmicos se perde quando se busca, através destes, resultados que visam não o progresso científico como fim maior, mas sim a defesa de causas ou ideias específicas com fins de protesto ou mercadológicos.

Pode-se perguntar então se é errado utilizar a Ciência e suas técnicas de pesquisa para defender causas e ideais, e a resposta é sim quando o propósito supera o rigor na condução da pesquisa. O problema da advocacy research é que, ao defender um ideal e tentar sustentá-lo através da Ciência, muitas vezes já se parte da busca de resultados muito claros e específicos, que, como se sabe, podem concretizar-se ou não ao final pesquisa. Quanto  a isso, já foi inclusive comprovado que pesquisas engajadas podem sim apresentar resultados enviesados, conseguidos através da aplicação com pouco rigor de técnicas de pesquisa com a finalidade apenas de sustentar a causa defendida.

Obviamente, o problema ético da falta de rigor científico e forjamento de resultados desejados já foi largamente comprovado no meio acadêmico em geral, porém, por suas particularidades, a pesquisa engajada sempre desperta maior cautela para este tipo de problema. Por esta razão, não incorrer neste tipo de negligência, ainda que sem intenção, deve ser uma preocupação constante dos pesquisadores envolvidos na advocacy research, visto que é tentador deixar a paixão por uma causa sobrepor o rigor da Ciência.

O que fazer para não comprometer a pesquisa

Nos casos em que são cometidas falhas propositais na aplicação de métodos de pesquisa, nada pode ser feito para evitar o enviesamento dos resultados obtidos. Porém, para aqueles que desejam utilizar a pesquisa engajada com fins positivos, é possível realizá-la de forma neutra desde que o pesquisador esteja firmemente disposto a isso. É preciso ter em mente que nenhuma pesquisa é perfeita e impassível a equívocos em sua realização, mas a utilização do rigor científico pode garantir que os erros cometidos sejam de ordem não intencional e baseados no desconhecimento do qual parte toda pesquisa, e não na negligência.

A aplicação justa do rigor científico deve começar no condicionamento da disposição do pesquisador na condução do trabalho, uma vez que é necessário praticar a objetividade e afastamento emocional ao longo da realização da pesquisa. O afastamento emocional e objetividade são fundamentais na escolha do objeto e recorte de pesquisa e também no processo de coleta de dados. Isso se torna ainda mais necessário na pesquisa qualitativa, que envolve maior contato com questões subjetivas e a necessidade avaliar situações e contextos para os quais não há respostas ou definições exatas. E se o orçamento permitir, talvez seja uma boa ideia contratar os serviços de uma empresa de pesquisa confiável para produzir resultados mais imparciais ou verificar os resultados obtidos.

É importante lembrar que é impossível garantir em qualquer tipo de pesquisa – em particular na pesquisa qualitativa – a total isenção de enviesamento ideológico. Por isso, a melhor forma de evitá-lo é adotando todos os mecanismos possíveis para neutralizá-lo, como os citados anteriormente. Agindo desta maneira o pesquisador terá mais fundamentos para defender-se de suas próprias dúvidas quanto à idoneidade de sua conduta e das dúvidas de terceiros.

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